sexta-feira, 1 de julho de 2011

O saxofonista que estava no caminho

O saxofonista que estava no caminho

Naquele dia ela saiu do quarto, botou suas botar pretas, vestiu seu sobretudo, pegou o guarda-chuva e saiu. Desceu quatro lances de escada antes de chagar a porta. Comprou um jornal na esquina, atravessou a avenida, andou três quadras, passou por um artista de rua que estava tirando seu saxofone da capa, atravessou mais uma rua e chegou a cafeteria. Pediu um café preto e dois pães de queijo. Enquanto o café não vinha, pegou o jornal e começou a ler. Leu metade da noticia principal antes de do café chegar. Dobrou o jornal e o colocou na mesa. Ela não acha que ia chamar atenção já que toma seu café normalmente, achava que ninguém nunca irar notar o modo em que contraia os lábios depois de cada gole, acredita que ninguém percebe que ela ler o jornal ao mesmo tempo em que morde o pão de queijo. Ela fez tudo como sempre fazia e nunca a acontecera nada de especial, porque daquela vez seria diferente? Bom, seria diferente porque o saxofonista a notou.
Então depois que ela cruzou com por mim, guardei meu sax e a segui discretamente até a padaria. Sentei longe o suficiente para ela não me reconhecer e perto o suficiente para deslumbrar cada movimento dela. Vi que ela trabalhava ali na frente e que não podia continuar com minha perseguição, então esperei ela terminar o café e ir para o trabalho antes de voltar ao meu trabalho. Quando ela saiu e foi trabalhar, peguei o saxofone e voltei para rua aonde tocava, toquei o dia todo esperando ela passar de novo por mim. Mas isso não aconteceu.
No dia seguinte cheguei mais cedo ao meu ponto de trabalho, quando percebi que ela se aproximava, comecei a tocar. Vi ela se aproximando, andando apressada como sempre, parei de tocar e a vi passar, quando ela passou por mim continuei a tocar, só que agora tinha motivos. E aconteceu a mesma coisa nos dias que se seguiram. Eu tocava, ela passava com pressa, eu parava a via passar por mim até ir embora. Depois de ma semana com a mesma rotina, ela pareceu notar e finalmente foi falar comigo.
- com licença. – meu coração se encheu de alegria ao ouvir sua voz
- pois não? - Respondi.
- porque senhor sempre para quando eu estou passando?
- porque é muito difícil tocar quando a musica do sax começam a se confundir com o som do seu coração acelerado.
Ela ficou sem jeito, me olhou e dessa vez não me viu apenas como um senhor de meia-idade, que tocava sax na rua. Ela me viu um homem doce e gentil, coisa que minha barba mal feita e os meus cabelos levemente grisalhos escondiam. Educadamente se aproximou de mim e perguntou.
- o senhor não gostaria de tomar um café comigo?
- eu vou, mas com duas condições.
- e quais seriam essas condições? – perguntou ela curiosa.
- você para de me chamar de senhor e me chamar de Tomas e me dizer seu nome.
Surpreendida com as minhas condições, simplesmente riu. Apenas riu.
- tudo bem Tomas. Eu sou Aline. Podemos tomar um café numa padaria que tem logo ali.
- então vamos... - enquanto iam caminhando junto, percebi que nosso assunto fluía naturalmente, que poderíamos falar por horas interruptas sem achar chato ou tedioso. Então chegou a fatídica hora em que ela iria trabalhar e eu voltaria ao meu ponto. Só que algo mudou. Enquanto tocava meu sax perto da hora de ir embora, notou que Aline se aproximava, ela nunca tinha voltado pelo mesmo lugar, ela só passara por ali porque era o caminha da padaria. Mas ela voltou pelo mesmo caminho. Apenas para ouvir o meu sax tocar.
Ela parou na minha frente, trazia uma sacola com pães de queijo, se sentou na calçada, pegou um pão e começou a comer ouvindo o saxofone tocar. Fiquei surpreso só que dessa vez não parei de tocar. Toquei mais alto e mais bonito. Fazendo ela ter contrações de emoções, orgasmos sonoros. Quando a musica acabou, eu coloquei o sax de lado, sentei ao lado de Aline e nós dois ficamos a eternidade de alguns segundo se olhando até que ela se aproximou do meu rosto e colocando a mão sobre minha orelha, me beijou. Se os segundos se olhando pareceram uma eternidade, os segundos durante o beijos pareciam centésimos, milésimos, passou rápido demais, acabou rápido de mais. Nossos rostos se afastaram, os olhos se abriram e se encontraram novamente. Os de Aline se esconderam em vergonha, os meus foram tomados pela surpresa e pela emoção. Ela se desculpou, e disse que cometeu um erro. Quem dera todos os erros fossem tão prazerosos como um beijo de Aline. Eu foi cavalheiro e admiti também ter culpa. Essa era uma culpa que qualquer um podia levar sem serias conseqüência. Depois das desculpas, ela riu, foi se levantando lentamente na frente dos olhos em mim até ficar em pé. Eu me levantei e fiquei diante dela. Ela me olhou e foi embora sem dizer mais nada. Eu podia ir atrás dela, devia ter ido atrás dela, mas minha mente ainda estava incrédula com o que tinha de acontecido, não consegui mover meus os pés. Não tinha o que fazer, em meu coração eu tinha certeza que a veria amanhã. Então o único movimento que fiz foi passar o dedo indicador em cima do meu lábio inferior e lembrar o lindo momento em que Aline me beijara.

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